"Quem olha para fora, sonha;
quem olha para dentro, desperta"
Carl Young
Foi muito doído abandonar a sementinha plantada ano passado por mim e pela Luíza Gamboji, quando entrevistamos o Juliano na porta da UNA. Lembro do dia como se fosse hoje: o povo reunido na mesa do Boi na Brasa, tomando cerveja e esperando o jogo começar, eu e a Luíza saindo da faculdade. Foi quando o Juliano apareceu. Ele se aproximou pra vender refri, eu disse que só comprava se fose light, porque engorda. Ele me ofereceu uma lata vazia pra comprar, dando risadas, beeeem loco. Começamos a conversar. Ele demonstrava uma grande capacidade de relacionar coisas significantes, e desenvolvia um discurso socialista de dar inveja a muito bandeirola.
O Juliano Santos cantou rap e brincou como criança, no paraíso de ser o centro das atenções. Recitou Wilson Trópia, com uma perfeição incrível.Quase caí pra trás... tirei rápido a câmera da bolsa e comecei a gravar. Eu e a Lú olhávamos uma pra outra surpresas com aquela pessoa na nossa frente. Gravamos uma parte da conversa, uma letra de rap e fiz algumas perguntas. Ele nos acompanhou até a porta do bar, conversando como grandes amigos que há tempos não se vêem. Foi embora e nós duas nos perdemos em conversas sobre o valor das pessoas, e da necessidade de dar valor as belezas simples da vida, dos Presentes que ela nos dá.
Isso é pra lembrar a idéia original deste blog, a princípio. O resto é com você.
Desde a época do Juliano muitas coisas mudaram na minha vida e na da Luiza. O Juliano mudou alguma coisa em nós, sobre o conceito e valor que damos as pessoas. Todos importantes e peças fundamentais desta terra de possibilidades onde vivemos.
"O Senhor... mire e veja: o mais importante e bonito do mundo é isto:
que as pessoas não estão sempre iguais, não foram terminadas,
que elas vão sempre mudando. E o que a vida me ensinou.
Isso me alegra. Muitào.
Guimarães Rosa.
O valor das pessoas não está no dinheiro ou poder que tem, e sim no que refletem e nas experiências que escolhem e precisam viver. Todos tem seu caminho e se fossemos todos loiros, ricos, poderosos e famosos seria o caos. Acho que o planeta não suportaria tantos egos inchados repletos coisas fúteis e tolas.
Depois que conhecemos o Juliano refletimos sobre estes aspectos e criamos o Gentedeverdade.blogspot.com. Sua idéia principal é homenagear estas pessoas, que saíram da casca, tiraram o rótulo e fizeram diferença através de seus pensamentos, musicas, poemas e telas. Famosos ou anônimos.
Agora voce fica com o poema Mude, de Édson Marques, maravilhoso:
Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante,
que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.
Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.
Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros,
Viva outros romances.
Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.
Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.
Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.
Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.
Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida,
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado...
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.
Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias.
Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.
Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem
despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda!
Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!"
A porta da verdade estava aberta, mas só deixava passar meia pessoa de cada vez. Drummond
segunda-feira, 14 de julho de 2008
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Gente de verdade 2: Clarice Peluso, atriz
E por quanto tempo ali estivera sem se dar conta – sem dar conta de si? Deus me livre de mim – rezava com fé de quem pede o impossível. Havia aprendido por constatação que seu maior medo era de ser humano. E havia também guardado com cuidado as chaves que a vida lhe dera em sua árida trajetória repleta de guerras e mortes íntimas. Mas, uma vez, havia experimentado o amor. Amor tem gosto de água que se bebe de filtro de barro e aos olhos tem cor de sol e brilha de cegar a gente e deixar sem ar quando faz parar o tempo e se confessa em silêncio e se declara no olhar. Blagh blagh blagh – já era crescida suficiente para saber que quem uma vez experimentou amor, experimentaria a segunda e seria tudo diferente - e assim por diante. O fato é que catava os cacos no fundo do seu coração penhasco, e pra quê ia pensar tanto tão pequenina, não ia afinal desvendar sua sina pensando tanto. Foi quando:
Nada!
Simplesmente nada aconteceu – nem um pensamento - nada!
Ficou tudo parado.
Assim: de uma hora pra outra – de repente.
E assim ficou por um bom tempo:
Toda em silêncio.
E tudo em volta. Só. Silêncio.
Até que: nada. Tentou mais uma vez: nada. Estava presa. Não conseguia abrir mão, abandonar aquele silêncio que havia se tornado sua casca – tornara-se sua carne, seu próprio corpo e sua pele branca como morte sem doença. No universo paralelo dentro do seu estômago havia uma revolução e rebeldes desafiavam a polícia com pedras e bombas de fabricação caseira. Então começou no interior da sua cabeça um concerto de heavy metal com espasmos de música clássica. Desmaiou! Não, não conseguiu – tentara com todas as forças desmaiar-se, mas permaneceu lúcida atormentada perplexa e sem coordenação.
E mais um mundo caiu. Mais uma cabeça rolou. E o vento ventou acordes de falta em harmonia destorcida, cicatrizada. E a falta do que fazer em todo o redor - a falta de qualquer coisa ou qualquer falta. Olhou-se no espelho e o que viu não lhe espantou: natureza morta. Antiqüíssima. Mais antiga que a dificuldade que sempre lhe acomometera por saber-se bípede num planeta redondo e ainda ter que respirar ao mesmo tempo...
Desabou: é que às vezes uma mudança de lua, me deixa toda mexida... noutras, quando mênstruo, fico toda misturada... E por minha vez aviso: estou vivendo! Eu sou vivendo! O tempo inteiro enquanto respiro, vivo! E erro. Erro existencialmente por não saber respirar direito. Respirar cansa - a mim me cansa. É isso. Por hora... É isso, agora. Depois muda... Como muda de planta... Entende?
Clarice Peluso/ amo - amiga
Ler este texto até o fim, sem conseguir desgrudar os olhos nem pra saciar a curiosidade de logo saber o autor, só podia ser Obra de Clarice.
Perceber seus traços nos textos e entender o que lhe coça a cabeça é mágico. É questionar a magia das coisas, e humildemente tentar descobri-las... pedindo desculpas pela tolice da tentativa.
É ser lindo e puro, e mesmo assim saber que ainda é pouco, que se é uma construção.
É pedir: - me abraça? com cara de: - desculpa?
Da Clarice agente sente falta. Quem dera mais Clarices no mundo.
Nada!
Simplesmente nada aconteceu – nem um pensamento - nada!
Ficou tudo parado.
Assim: de uma hora pra outra – de repente.
E assim ficou por um bom tempo:
Toda em silêncio.
E tudo em volta. Só. Silêncio.
Até que: nada. Tentou mais uma vez: nada. Estava presa. Não conseguia abrir mão, abandonar aquele silêncio que havia se tornado sua casca – tornara-se sua carne, seu próprio corpo e sua pele branca como morte sem doença. No universo paralelo dentro do seu estômago havia uma revolução e rebeldes desafiavam a polícia com pedras e bombas de fabricação caseira. Então começou no interior da sua cabeça um concerto de heavy metal com espasmos de música clássica. Desmaiou! Não, não conseguiu – tentara com todas as forças desmaiar-se, mas permaneceu lúcida atormentada perplexa e sem coordenação.
E mais um mundo caiu. Mais uma cabeça rolou. E o vento ventou acordes de falta em harmonia destorcida, cicatrizada. E a falta do que fazer em todo o redor - a falta de qualquer coisa ou qualquer falta. Olhou-se no espelho e o que viu não lhe espantou: natureza morta. Antiqüíssima. Mais antiga que a dificuldade que sempre lhe acomometera por saber-se bípede num planeta redondo e ainda ter que respirar ao mesmo tempo...
Desabou: é que às vezes uma mudança de lua, me deixa toda mexida... noutras, quando mênstruo, fico toda misturada... E por minha vez aviso: estou vivendo! Eu sou vivendo! O tempo inteiro enquanto respiro, vivo! E erro. Erro existencialmente por não saber respirar direito. Respirar cansa - a mim me cansa. É isso. Por hora... É isso, agora. Depois muda... Como muda de planta... Entende?
Clarice Peluso/ amo - amiga
Ler este texto até o fim, sem conseguir desgrudar os olhos nem pra saciar a curiosidade de logo saber o autor, só podia ser Obra de Clarice.
Perceber seus traços nos textos e entender o que lhe coça a cabeça é mágico. É questionar a magia das coisas, e humildemente tentar descobri-las... pedindo desculpas pela tolice da tentativa.
É ser lindo e puro, e mesmo assim saber que ainda é pouco, que se é uma construção.
É pedir: - me abraça? com cara de: - desculpa?
Da Clarice agente sente falta. Quem dera mais Clarices no mundo.
domingo, 11 de novembro de 2007
Gente de verdade 1: Carlos Drummond de Andrade, poeta de Itabira e de mais outros

A porta da verdade estava aberta,
Mas só deixava passar
Meia pessoa de cada vez.
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
Só trazia o perfil de meia verdade,
E a sua segunda metade
Voltava igualmente com meios perfis
E os meios perfis não coincidiam verdade...
Arrebentaram a porta.
Derrubaram a porta,
Chegaram ao lugar luminoso
Onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em metades
Diferentes uma da outra.
Chegou-se a discutir qual
a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela
E carecia optar.
Cada um optou conforme
Seu capricho, sua ilusão, sua miopia.
Drumond é sem palavras
é de poesia e de verso, é sem descição
não é discreto, parece são... são seus olhos.
olhos interioramos, de Itabira e de sí.
Amo!
Assinar:
Postagens (Atom)